Indefinições no modelo do novo aeroportos afasta investidores
Publicado no “i” em 22 Maio 2009
A Abertis, uma das maiores concessionárias espanholas e accionista da Brisa, desistiu de concorrer ao novo aeroporto de Lisboa. A empresa, que tinha manifestado desde logo interesse na operação, justifica a mudança com uma estratégia “de crescimento com base na consolidação de activos em que já está presente ou operações de integração”. Nesse sentido, disse fonte oficial ao i: ”Não prevemos participar, a curto prazo, em operações que exijam um importante esforço económico, como é o caso do projecto do novo aeroporto de Lisboa.”
Num mês, é o segundo grupo a desistir de concorrer a este investimento. Em Abril, a Semapa anunciou a saída da corrida, antes de ter sido dado o sinal de partida. A holding liderada por Queiroz Pereira decidiu “não dar seguimento, neste momento, ao projecto que visava estabelecer uma parceria para estudar a possibilidade da apresentação conjunta de uma oferta” à privatização da ANA e construção do novo aeroporto.
A crise financeira e económica e o seu impacto nos custos dos novos projectos e no tráfego aéreo são argumentos para as desistências. Mas várias fontes contactadas pelo i apontam também o dedo às indefinições e mudanças do modelo de negócio e ao arrastar do projecto. “Não diria que os grandes grupos internacionais deixaram de estar interessados, mas é certo que o interesse esfriou muito”, referiu ao i fonte do sector da construção. Primeiro foi a mudança da Ota para o Campo de Tiro de Alcochete e o atraso de dois anos no lançamento do concurso. Agora é a alteração no modelo de negócio, que já não passa pela privatização da maioria da ANA, mas pela venda de uma posição minoritária na gestora dos aeroportos. A decisão, que inclui a construção do novo aeroporto, já está tomada, sabe o i.
Rui Horta e Costa, presidente da Asterion, primeiro consórcio formado, não esconde que a sua preferência vai para uma operação que envolva a maioria do capital da gestora aeroportuária. No entanto, admite que uma privatização minoritária da ANA pode fazer sentido, desde que sejam dadas garantias aos privados de uma partilha equilibrada dos riscos de construção e participação na gestão da empresa.
O modelo de separação dos dois negócios - privatização da ANA e construção do aeroporto - é o mais malvisto pelos interessados. O presidente do Banif Investimento, Artur Fernandes, realça que, nesse cenário, deixarão de fazer sentido os megaconsórcios que incluem empresas de construção, operação e financiamento - como o Asterion, um agrupamento co-liderado pela Brisa e Mota-Engil, que integra os três maiores bancos nacionais.
A solução de vender uma posição minoritária, corre o risco de transformar o negócio num mero investimento financeiro, se os investidores não puderem intervir na gestão da construção do aeroporto. Com o Estado a mandar na ANA, o projecto poderia limitar-se a uma empreitada com interesse para as construtoras, mas não para operadoras portuárias ou empresas de concessões.
“Tenho a maior dificuldade em ver a vantagem”, diz Horta e Costa, uma vez que a construção do aeroporto exige um nível de investimento muito maior do que a venda da ANA. Esta alteração do modelo implicaria também novo atraso no processo de construção, comprometendo de vez o calendário de abertura de 2017. E a data parece ser a principal preocupação do ministro das Obras Públicas. “Estou a trabalhar para que haja aeroporto em 2017″, disse Mário Lino ao i. Fonte oficial do Ministério das Obras Públicas lembra que está previsto o lançamento do concurso até final de Junho, quando será anunciado o modelo de negócio. A primeira fase será para qualificação dos candidatos e deve demorar até ao fim do ano, ao mesmo tempo que decorre o estudo de impacto ambiental.
Todas estas mudanças terão retirado alguma credibilidade ao projecto, em especial junto de grupos internacionais que têm de planear com antecedência os projectos a que vão alocar recursos. Um dos afastamentos previsíveis é o do fundo australiano Macquarie, embora, no caso do grupo que foi accionista da Lusoponte, esteja em curso uma profunda reestruturação.
Para a Semapa, que não quis explicar a razão da desistência, o modelo de negócio terá sido decisivo porque o interesse estava na privatização da ANA e gestão do negócio aeroportuário, sem incluir outras receitas comerciais - o que teria impacto nas taxas a cobrar. O segundo consórcio criado para o novo aeroporto reúne a Teixeira Duarte e a Ferrovial. O grupo espanhol disse ao i que mantém o interesse, mas aguarda a estrutura da operação. Esta é também a posição do Banif, para quem o dossiê não é uma prioridade, diz Artur Fernandes. Apesar das desistências, há presenças dadas como certas, como as da Soares da Costa e Edifer. E continua a haver grupos internacionais interessados, como a Hochtief, Vinci, Odebrecht e a gestora do aeroporto de Amesterdão.